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Abres a porta de madeira e la fora, sentada no nevoeiro e rodeada pelos olhos dos lobos, esta uma mulher de cabelos verdes e maos arrefecidas..sao as palavras que desenha sobre o embaciado dos vidros da janela sem luz. E uma luz acende-se no contorno das letras. Abres a janela e ves o nevoeiro riscado pela respiracao carnivora. Ha lobos antiquissimos que chegam do mar e trazem o pelo coberto pela neve das viagens. Ha lobos de patas queimadas que sacodem a cinza dos portos incendiados pelos bombardeamentos. Ha lobos que falam linguas estranhas na saliva das bocas ensanguentadas. Ha lobos famintos que espalharam sobre os corpos despidos a escrita ofegante dos sexos. Ha grandes lobos negros que entram silenciosos no claustro das igrejas. Ha lobos tao perto da infancia que os guizos das trelas estremecem sobre o asfalto. Ha lobos sabios que orquestram suspensas coreografias animais. Ha lobos de patas partidas que deslizam lentamente para o abismo sobre o crepitar das folhas amarelecidas. E tu, que vens da noite e regressas para dentro da noite, ajoelhas-te junto aos lobos e dizes as palavras brancas que lhes acendem os olhos. Ate que a porta de madeira se feche para o lado silencioso do mundo. Adormeces. Tens a boca entreaberta e as pernas apertadas em torno do braco que ficou la dentro. Inclino-me sempre sobre a mancha do sono onde alguem desce como num poco de quinta. E vejo as imagens que correm sob as palpebras azuis rodando lentamente para as aguas de uma memoria ostensiva: es a crianca que corre, a crianca que chora, a crianca que aprende a brincar dentro de uma caixa, o armario onde uma crianca nasce para o odor aticado dos lobos, a crianca que bebe a espuma dos rios e aprende a nadar sobre os lencois de agua dos quartos com paredes de papel rasgado, a crianca que grava o nome nos arames do vento, e se deixa embalar pela danca da sala ao lado, a crianca com o pulso escrito a carvao e um fosforo aceso no corredor sem fim, a crianca do medo, e o medo dos passaros, a crianca de cabelos compridos e madeixas perdidas, a crianca que comecou a amar no amor das pedras e das conchas da praia. Venho de outros horizontes. Os meus animais sao domesticos, os meus corredores tem velas acesas nos casticais de ouro falso, a minha mae tinha a voz escorregadia da manteiga que ficou fora do frigorifico, o meu balouco caiu e nao chegou a voar, os meus soldados vinham dentro de chocolates, a minha agua jorrava das torneiras, a minha danca era tropega e inundava de sorrisos torpes o conves dos navios, os meninos da escola usavam bibes em vez de peles dos ursos polares, as minhas cachoeiras eram repuxos num jardim botanico, o meu corpo era lento e violentamente afono, cfd os meus comboios comecavam no alinhar das cadeiras da sala, os meus berlindes nao tinham neve la dentro, a minha sopa fumegava como nos compendios da escola, a minha noite era feita de algodao em rama, os barcos na praia sabiam a barquilhos. Havera um lugar da cidade (quarto, estufa, novelo, cabeleira, sexo, praca, travessa, moradia, torre, bar, escola, recreio, salao de danca, hotel sordido, livraria, sapataria, sotao, centro comercial, ginasio, mesa, casa de banho, lustre, candelabro, constelacao, ceu, infinito) onde tu e eu nos possamos encontrar um dia? Todo o amor é improvavel. O que significa que so o posso provar na repeticao do impossivel que ele vai ser, o que significa que nunca o conhecerei por inteiro, mas que o provo como se prova a comida do almoco, ou provo-o como se prova o fato no alfaiate, e nunca seria provavel que houvesse mais do que um arranhao na pele, uma serrilha gotejante de sangue, um colar de solucos e nauseas. E no entanto tu dizes que somos deslumbrantes - nós, nós vestidos na clandestinidade dos tecidos onde nos escondemos, suspensos da mao aberta que lentamente ergue o po e o transforma numa alegria de poeiras faiscantes, num coro de bocas animais, numa eterna danca de lobos lunares.
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Te quiero mucho, cariño. ;) hehe